Disparidades raciais e educacionais e obesidade entre os brasileiros

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Em vista da associação entre obesidade e contexto socioeconômico e da relevância de aspectos raciais, de gênero e educacionais no contexto brasileiro, um estudo teve como objetivo examinar as desigualdades educacionais na prevalência da obesidade entre a população adulta brasileira em 2013 e 2019 e avaliar como estas desigualdades se interseccionam com a raça/cor e o sexo, utilizando medidas síntese de desigualdade.

Foi realizado um estudo com dados obtidos das edições de 2013 e 2019 da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), com análises independentes para cada ano de pesquisa. A população do estudo foi constituída por indivíduos de 23 anos ou mais, devido a intenção de minimizar a inclusão de indivíduos que ainda frequentassem o ensino superior. Não foram considerados os dados de gestantes, indivíduos com informação de raça/cor ou peso e altura faltantes e indivíduos que se autoidentificaram como indígenas ou asiáticos, devido ao tamanho da amostra.

As análises foram realizadas considerando homens e mulheres e estratificadas de acordo com a raça/cor (branca, preta e parda) e o nível de escolaridade (pré-primário, primário, secundário e terciário), que foi considerado como um indicador de posição socioeconômica. A obesidade foi avaliada como uma variável dicotômica, a partir do ponto de referência da Organização Mundial da Saúde (IMC ≥ 30 kg/m2). Ademais, foram calculadas estimativas de desigualdade educacional absoluta, que representa a diferença na prevalência de obesidade entre os níveis mais baixos e mais altos de escolaridade, e relativa, que apresenta a diferença sob a forma de razão, para cada ano de pesquisa.

Os resultados da pesquisa apontam que, em 2019, as mulheres pretas com o menor nível educacional destacaram-se como o grupo com a maior prevalência de obesidade. Ademais, as mulheres com menor escolaridade apresentaram maior prevalência de obesidade nos dois anos de pesquisa, enquanto entre os homens, aqueles com os maiores níveis de escolaridade, apresentaram maiores prevalências. Os resultados se mantiveram ao considerar as medidas de desigualdades educacionais absolutas e relativas, em ambos os anos.

Em 2019, considerando as medidas de desigualdade relativa e absoluta, houve maior concentração de obesidade entre os homens com maior escolaridade para todos os grupos raciais. A desigualdade absoluta foi maior e significativa entre os homens pretos e pardos, enquanto a relativa entre os homens pardos. Ao comparar os dois anos, houve diferença significativa apenas para os homens pretos, fato que sugere que a obesidade, inicialmente mais prevalente em um nível educacional mais baixo, passou a ser mais prevalente entre os indivíduos de maior escolaridade.

Entre as mulheres brancas e pardas, a desigualdade foi estatisticamente significativa em ambos os anos, com maior prevalência de obesidade entre as mulheres com menor escolaridade. Observou-se redução da desigualdade entre as mulheres pardas, na comparação entre as duas pesquisas, reflexo de um crescimento mais acelerado da prevalência de obesidade entre as mulheres pardas com maior nível de escolaridade na pesquisa de 2019.

A prevalência de obesidade foi maior na pesquisa de 2019 em comparação ao ano de 2013 para todos os grupos raciais. Entre as mulheres, as mulheres pardas apresentaram 4,7 pontos percentuais de aumento de prevalência de obesidade, com isto, aproximaram-se dos resultados apresentados pelas mulheres pretas, com maiores prevalências nos dois anos, e se distanciaram das prevalências apresentadas pelas mulheres brancas, com menor aumento, de 1,5 ponto percentual. Em relação aos homens, os homens brancos apresentaram a maior prevalência de obesidade na pesquisa de 2013, entretanto, em 2019, a prevalência de obesidade aumentou de maneira mais acentuada entre os homens pretos e pardos, de forma que as diferenças raciais não foram expressivas.

Os resultados sobre a associação entre escolaridade e obesidade alinham-se aos achados de estudos realizados em países como Peru, México e Colômbia. Esses resultados apontam um padrão de associação entre escolaridade e obesidade negativo para as mulheres, diminuindo com aumento da escolaridade, e positivo para os homens. Contudo, este cenário pode ser alterado à medida que o país se desenvolva economicamente, com isto, a obesidade se tornaria mais prevalente entre os grupos socioeconômicos mais vulneráveis, principalmente entre as mulheres, como é observado nos países europeus. Ademais, os resultados estão em consonância com a literatura que investiga as condições de vida dos indivíduos negros no Brasil e tem mostrado que o racismo estrutural e desigualdades sistêmicas agravam desigualdades em saúde.

Dentre as limitações do estudo é possível destacar as medidas autorreferidas de peso e altura, que podem estar sujeitas a distorções relacionadas a questões socioeconômicas e raça/cor e ao fato de os indivíduos pretos e pardos e de menor escolaridade apresentarem maior presença de dados faltantes de peso e altura. Contudo, análises adicionais foram realizadas e não revelaram diferenças relevantes nas estimativas de prevalência.

Em síntese, o estudo destaca desigualdades educacionais e raciais na obesidade entre os adultos brasileiros, com padrões distintos entre os grupos raciais e de gênero. Tal fato reforça a necessidade de abordagens interseccionais para estudos relacionados a obesidade e de políticas públicas com estratégias que visem grupos socialmente vulneráveis.

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