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15 de setembro de 2026O aumento dos preços dos alimentos é uma tendência mundial que ameaça a segurança alimentar e nutricional, sobretudo entre as populações de menor renda. Esse cenário resulta da combinação de fatores econômicos, climáticos, sanitários e geopolíticos, como inflação, variação cambial, aumento dos custos de produção e transporte, assim como eventos climáticos extremos, pandemia de COVID-19 e conflitos internacionais. Além disso, evidências indicam que os alimentos in natura ou minimamente processados vêm se tornando relativamente mais caros do que os ultraprocessados, dificultando a adoção de dietas saudáveis e ampliando desigualdades sociais e nutricionais. No Brasil, embora os alimentos in natura ou minimamente processados ainda tenham apresentado menor preço por quilograma em determinados períodos, seus preços aumentaram progressivamente, especialmente durante e após a pandemia, enquanto alimentos processados e ultraprocessados apresentaram redução relativa.
Diante da escassez de estudos brasileiros que incluam dados recentes e projeções futuras, um artigo teve como objetivo analisar a evolução dos preços dos alimentos no Brasil, com ênfase no período posterior à pandemia de COVID-19, e projetar seu comportamento até 2026. Para isso, o estudo atualizou as séries históricas até 2024, integrou diferentes fontes de dados nacionais e utilizou informações mensais e métodos analíticos robustos, permitindo identificar tanto as oscilações de curto prazo quanto tendências estruturais. Assim, buscou produzir evidências que apoiem políticas públicas oportunas de segurança alimentar e nutricional, a garantia do direito humano à alimentação adequada e fortalecimento de sistemas agroalimentares sustentáveis.
O estudo utilizou dados secundários da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2017/2018, do Sistema Nacional de Índices de Preços ao Consumidor (SNIPC) e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), todas realizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os dados da POF e do SNIPC foram combinados para construir uma base de dados com preços mensais (R$/kg) dos alimentos e bebidas mais consumidos no Brasil, de janeiro de 2018 a dezembro de 2024, e os dados da PNAD Contínua foram utilizados para estimar as variações na renda per capita durante o mesmo período.
O estudo analisou os preços de 132 alimentos e bebidas consumidos nos domicílios brasileiros entre janeiro de 2018 e dezembro de 2024, selecionados com base na Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) e no IPCA. Os itens foram classificados segundo a classificação Nova em alimentos in natura ou minimamente processados e ingredientes culinários, alimentos processados e alimentos ultraprocessados. Após a exclusão de valores extremos, os preços foram corrigidos pela inflação, tendo dezembro de 2024 como referência, e foram calculadas médias anuais para cada grupo e subgrupo. Os pesquisadores também compararam a evolução dos preços com a variação da renda média da população no mesmo período, utilizando dados da PNAD Contínua. Por fim, o estudo adotou uma abordagem de séries temporais univariadas, para identificar tendências e variações sazonais e projetar os preços dos alimentos até 2026.
Entre 2018 e 2024, os preços médios dos alimentos processados e ultraprocessados diminuíram, com maior redução entre os ultraprocessados, enquanto os alimentos in natura ou minimamente processados e os ingredientes culinários apresentaram forte aumento durante a pandemia e retornaram, em 2024, a valores próximos aos de 2018. Apesar disso, o índice acumulado de preços aumentou em todos os grupos, especialmente entre os alimentos mais saudáveis, superando o crescimento dos ultraprocessados em aproximadamente 30 pontos percentuais. Como a renda nominal cresceu mais lentamente do que os preços dos alimentos, os resultados sugerem perda do poder de compra, sobretudo para a aquisição de alimentos saudáveis. Houve ainda uma aproximação entre os preços dos alimentos saudáveis e dos ultraprocessados, tendência que deverá continuar até 2026, quando os ultraprocessados poderão se tornar o grupo mais barato, enquanto os processados deverão permanecer como os mais caros.
Esse cenário dificulta a adoção de dietas saudáveis e sustentáveis, especialmente entre as famílias de menor renda, e pode ampliar a insegurança alimentar, as desigualdades e os problemas de saúde. Entre os fatores relacionados a essa tendência estão os efeitos da pandemia nas cadeias de abastecimento, as mudanças climáticas, a desvalorização cambial, a alta das commodities, a tributação regressiva dos alimentos e o apoio agrícola concentrado em produtos como soja, milho, açúcar e carne.
Em síntese, os resultados do estudo destacam a necessidade de políticas públicas integradas que melhorem a acessibilidade a alimentos saudáveis por meio de medidas fiscais como subsídios e isenção tributária para alimentos saudáveis, programas de proteção social e incentivos à produção e ao consumo de alimentos in natura ou minimamente processados, ao mesmo tempo em que desestimulam o consumo de alimentos ultraprocessados, como, por exemplo, através de maior tributação e regulação da publicidade de ultraprocessados. Essas estratégias em conjunto são essenciais para fortalecer a segurança alimentar e nutricional e avançar na concretização do direito humano à alimentação adequada.




