Desigualdades sociais no acesso aos alimentos no Rio de Janeiro

Manual de Aplicação do Intrumento de Avaliação do Ambiente Alimentar Organizacional
25 de setembro de 2026
Manual de Aplicação do Intrumento de Avaliação do Ambiente Alimentar Organizacional
25 de setembro de 2026

O ambiente alimentar refere-se a oportunidades e condições, de ordem física, econômica, política e sociocultural, que influenciam as escolhas alimentares e o estado nutricional das pessoas. Ele também é influenciado por determinantes individuais que interferem no consumo alimentar, como renda, escolaridade, preço dos alimentos e habilidades culinárias. Entre as classificações do ambiente alimentar está o ambiente alimentar de varejo, isto é, os locais onde os alimentos estão disponíveis para compra, considerando tipo, quantidade, localização e acesso. Nesse espaço, as condições socioeconômicas têm papel determinante no acesso à alimentação.

Embora muitos estudos analisem onde os estabelecimentos de venda de alimentos estão distribuídos no território, essa abordagem não mostra, por si só, como os consumidores interagem com o ambiente alimentar de varejo, sobretudo nos grandes centros urbanos. Nesse sentido, o estudo buscou avaliar a utilização dos locais de aquisição de alimentos no Município do Rio de Janeiro, identificando desigualdades sociais no acesso.

Trata-se de um estudo transversal realizado com base nos dados do I Inquérito Populacional sobre a Insegurança Alimentar no Município do Rio de Janeiro, conduzido entre novembro de 2023 e janeiro de 2024. Entrevistadores treinados realizaram entrevistas face a face com a pessoa de referência da família ou outro adulto capaz de fornecer as informações. Os domicílios da área urbana foram selecionados nas cinco Áreas de Planejamento (AP) da cidade para compor uma amostra representativa. Ao todo, 1.855 domicílios foram incluídos na análise.

Para a classificação dos locais de aquisição de alimentos, os participantes informaram o principal local de compra de itens usados como marcadores de alimentação saudável ou não saudável: arroz, feijão, legumes e verduras, frutas, carnes, ovos, leite e derivados, doces, biscoitos e salgadinhos e bebidas açucaradas. Os locais foram reunidos em quatro grupos: supermercados, pequenos mercados, locais de venda predominante de alimentos in natura ou minimamente processados e locais de venda predominante de ultraprocessados. Comércio informal e doações também foram registrados, mas ficaram fora das análises principais por terem sido pouco citados.

Esses dados foram relacionados a características da pessoa de referência do domicílio (sexo, raça/cor, escolaridade e presença de trabalho remunerado), renda familiar per capita, situação de segurança alimentar, medida pela Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA), e localização do domicílio.

O perfil sociodemográfico das famílias avaliadas caracterizou-se pelo predomínio de chefes do sexo feminino, pessoas pardas, com escolaridade intermediária e inserção no mercado de trabalho remunerado. Também houve maior proporção de famílias em segurança alimentar e com renda per capita superior a 1 salário mínimo. Os supermercados foram os principais locais de compra, citados por 97,5% das famílias, seguidos pelos estabelecimentos que comercializam alimentos in natura ou minimamente processados (80,6%) e pelos pequenos mercados. Os pontos de venda de produtos ultraprocessados foram os menos utilizados.

A utilização dos locais de aquisição de alimentos variou de acordo com as características sociodemográficas e o território de residência. Famílias chefiadas por pessoas com menor escolaridade utilizaram com maior frequência locais de venda de alimentos in natura ou minimamente processados e menos os supermercados. A presença de trabalho remunerado esteve associada à maior utilização de pequenos mercados e de locais de venda de ultraprocessados, enquanto a maior renda familiar per capita também esteve relacionada à maior utilização de pontos de venda com predominância de ultraprocessados. Na Zona Oeste, destacou-se a maior utilização de pequenos mercados e de estabelecimentos de venda de alimentos in natura ou minimamente processados.

Quando os pesquisadores consideraram simultaneamente as diferentes características das famílias, algumas associações permaneceram. Famílias em insegurança alimentar moderada ou grave apresentaram menor chance de utilizar supermercados em comparação àquelas em segurança alimentar. Famílias chefiadas por pessoas pretas, em comparação com brancas, ou com 5 a 11 anos de estudo, em comparação com 12 anos ou mais, tiveram maior chance de utilizar pequenos mercados, enquanto a ausência de trabalho remunerado esteve associada a uma menor chance de utilização desses estabelecimentos. Por outro lado, menor escolaridade e ausência de trabalho remunerado estiveram associadas a uma maior chance de utilizar locais de venda de alimentos in natura ou minimamente processados. Já a escolaridade entre 5 e 11 anos esteve associada a uma menor chance de utilizar locais de venda de ultraprocessados.

Para os autores, o predomínio dos supermercados é um indício de uniformização do varejo na cidade, padrão semelhante ao observado em estudos nacionais. Com base na literatura, eles destacam que esses estabelecimentos, embora vendam tanto alimentos in natura quanto ultraprocessados, tendem a favorecer o consumo de ultraprocessados. Como possíveis explicações, sugerem que famílias em melhores condições sociodemográficas usariam mais supermercados por terem maior capacidade de consumo, acesso mais estável ao transporte e compras planejadas. Os autores também relacionam o achado sobre raça/cor ao processo histórico de marginalização da população negra e, na Zona Oeste, apontam que a violência de grupos armados pode favorecer compras perto de casa e dificultar a instalação de outros comércios.

Além disso, ressaltam que o maior uso de locais de alimentos in natura pelos grupos em maior vulnerabilidade socioeconômica, embora represente um padrão protetor, não deve ser visto como uma escolha plena, pois pode estar relacionado a restrições orçamentárias e proximidade do pequeno varejo. Como implicações, defendem apoiar pequenos comerciantes para ampliar a oferta de alimentos saudáveis, expandir equipamentos de venda de alimentos in natura, fortalecer os pequenos mercados em áreas de vulnerabilidade e integrar essas ações ao planejamento urbano, com regulação da oferta de ultraprocessados. Ponderam, porém, que essas estratégias podem não ser suficientes sozinhas e que a melhora de renda, educação e acesso ao trabalho deve vir acompanhada da regulação do ambiente alimentar.

Entre as limitações, os autores citam o uso de informações autorrelatadas, sem registro objetivo das compras, e a ausência do ambiente alimentar digital, como os aplicativos de entrega. Também apontam que analisar fatores socioeconômicos interligados pode ter subestimado o efeito cumulativo das desigualdades.

Assim, o estudo mostrou que pequenos mercados e locais de venda de alimentos in natura ou minimamente processados são importantes pontos de compra para famílias marcadas por desigualdades sociais no Rio de Janeiro. Esses achados reforçam a necessidade de políticas públicas que ampliem feiras e mercados populares, fortaleçam o pequeno varejo local e regulem a expansão dos supermercados, favorecendo o acesso equitativo a alimentos saudáveis.

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