Eficácia de intervenção no estado nutricional e consumo de ultraprocessados em crianças com obesidade

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A obesidade é uma doença complexa e multicausal que tem afetado crianças e adolescentes em todo o mundo, tornando-se uma das principais preocupações de saúde pública. Estimativas recentes, indicam que 65,1 milhões de meninas e 94,2 milhões de meninos estejam com obesidade globalmente. No Brasil, a prevalência de obesidade em crianças de 5 a 9 anos é de 8,87% (486 mil crianças). A obesidade nessa fase da vida pode impactar o crescimento e o bem-estar das crianças, além de aumentar o risco de obesidade persistente e de doenças crônicas na vida adulta, elevando os gastos com o sistema de saúde.

Entre os fatores que contribuem para o aumento da obesidade infantil destaca-se o consumo de alimentos ultraprocessados. Por isso, estratégias de cuidado que promovam mudanças no comportamento e nas práticas alimentares são fundamentais para o enfrentamento da obesidade infantil. Intervenções eficazes envolvem multicomponentes, incluindo o envolvimento da família, da comunidade e dos profissionais de saúde.

No Brasil, o manejo da obesidade infantil é um dos temas prioritários da agenda brasileira de políticas de alimentação, nutrição e promoção da saúde do Sistema Único de Saúde (SUS) e contempla ações estratégicas no âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS). Nesse contexto, este estudo teve como objetivo avaliar o efeito de uma intervenção controlada e multicomponente sobre o consumo de alimentos ultraprocessados ​​e o estado nutricional de crianças com obesidade atendidas na APS.

O ensaio clínico randomizado foi conduzido no município de Betim, em Minas Gerais, envolvendo os centros de saúde públicos. Dos 37 centros de saúde do município, 20 foram selecionados aleatoriamente e incluídos na amostra, sendo alocados para o grupo controle (GC) ou grupo intervenção (GI). As crianças com idade entre 6 a 10 anos e com diagnóstico de obesidade (escore z ≥ + 2 para IMC/Idade) foram convidadas a participar do estudo.

A intervenção foi baseada em diferentes estratégias, como desenvolvimento um manual e de materiais a serem utilizados no manejo da obesidade infantil no contexto da APS/SUS e considerando o atendimento individual realizado por nutricionistas nos centros de saúde, as atividades de Educação alimentar e nutricional estimuladas em casa (cartilha) e nos centros de saúde (grupo), e o monitoramento das atividades por meio de WhatsApp. As intervenções incluíram cinco temas: alimentação, atividade física, comportamento sedentário, sono e saúde mental e foram desenvolvidas considerando o Guia Alimentar para População Brasileira e a Instrução para o cuidado de crianças e adolescentes com sobrepeso e obesidade no âmbito da APS.

O grupo de intervenção recebeu acompanhamento mais intensivo, com maior número de contatos e atividades ao longo de 9 meses. Já o grupo controle também foi acompanhando, porém com menor tempo de contato e sem algumas estratégias educativas e de monitoramento. Os dados foram coletados através de um questionário contemplando informações sociodemográficas e nutricional; consumo alimentar por meio da investigação dos alimentos ultraprocessados mais consumidos no Brasil; ambiente alimentar (doméstico e comunitário); Prática de atividade física, comportamento sedentário e sono. O questionário completo (5 blocos) foi aplicado em três momentos (consultas nos meses 1, 3 e 5) e nas demais consultas (meses 2 e 4), foi aplicado apenas o Questionário sobre o Consumo de Alimentos e Bebidas Ultraprocessados.

Ao todo, 167 crianças participaram inicialmente da pesquisa, com média de idade de 8,4 anos. A maioria era branca ou parda e com mães que tinham ensino médio completo. Durante o acompanhamento, 69 crianças abandonaram a pesquisa e quatro tiveram uma avaliação incompleta, totalizando 73 crianças no grupo de perdas durante o estudo. O IMC foi de 26,07 e 27,28 kg/m² para o GC e GI, respectivamente. O tempo médio total de contato entre as crianças foi maior no GI (12h34min) do que no GC (3h06min), conforme previsto na intervenção.

Os resultados indicam que as crianças do GI reduziram o consumo de alimentos ultraprocessados ao longo do acompanhamento. Essa redução começou a ser observada a partir da terceira consulta e foi mantida até o final do estudo, com uma diminuição de cerca de 10% no consumo desses alimentos. No GC, não foram observadas mudanças significativas nesse consumo. Ao analisar apenas as crianças que participaram de todas as etapas da intervenção, observou-se uma redução consistente no consumo de ultraprocessados no GI ao longo das últimas consultas. Em relação ao estado nutricional, não foram observadas diferenças significativas no IMC ou no IMC para idade entre os grupos ao longo do acompanhamento.

Esses resultados evidenciam que a intervenção multicomponente demonstrou eficácia na redução do consumo de alimentos ultraprocessados entre crianças com obesidade atendidas na APS. Embora não tenham sido observadas mudanças significativas no IMC, os resultados indicam que intervenções baseadas em educação alimentar, acompanhamento profissional e envolvimento familiar podem contribuir para melhorar o padrão alimentar das crianças. Além de reforçar o potencial de estratégias contínuas, transversais, comunitárias e individuais na rotina de atenção à saúde para o tratamento da obesidade e também para a prevenção de novos casos.

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