
Estigma e concepções sobre obesidade entre profissionais de saúde brasileiros
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8 de setembro de 2026A obesidade e outras doenças crônicas não transmissíveis têm aumentado globalmente. Dados indicam que 878 milhões de pessoas em todo o mundo vivem atualmente com obesidade, considerada um importante fator de risco potencialmente modificável.
Várias abordagens para perda de peso têm sido empregadas, incluindo tratamentos mais recentes, com substituição total da dieta e terapia com agonistas do GLP-1. Embora essas intervenções produzam perda de peso significativa, melhora nos parâmetros metabólicos e redução da incidência de diversas doenças, não são amplamente acessíveis, podem não produzir o mesmo grau de perda de peso em situações reais e impõem grande demanda por recursos do sistema de saúde. Além disso, os tratamentos para perda de peso em casos de obesidade geralmente são limitados pelo reganho de peso subsequente, resultante de mecanismos de defesa do peso estabelecido.
Diante disso, este estudo teve como objetivo caracterizar a trajetória do ganho de peso e de massa gorda ao longo da vida adulta, utilizando dados da coorte Estudo Longitudinal Brasileiro de Saúde do Adulto (ELSA-Brasil).
O ELSA-Brasil é uma coorte criada para investigar fatores de risco para doenças crônicas não transmissíveis ao longo do tempo. Os participantes são servidores públicos ativos ou aposentados, com idades entre 35 e 74 anos de em seis capitais brasileiras (Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Vitória e Porto Alegre). A primeira coleta ocorreu entre 2008 e 2010, seguida por três coletas de acompanhamento (2012-2014, 2017-2019 e 2022-2024), nas quais foram realizadas entrevistas, exames clínicos e laboratoriais. Dos 15.105 adultos participantes, foram excluídos do estudo aqueles com dados faltantes, que não compareceram às primeiras coletas de acompanhamento ou que haviam realizado cirurgia bariátrica no início do estudo, resultando em uma amostra final de 11.611 participantes.
Foram utilizados questionários padronizados para coleta das informações sobre idade, sexo, raça/cor, escolaridade, renda familiar, histórico médico, tabagismo, consumo de álcool e atividade física. Também foram realizadas medidas do peso corporal, circunferência da cintura e, nas coletas de acompanhamento, bioimpedância para avaliar a composição de massa gorda e massa muscular esquelética. Os participantes também informaram o peso aos 20 anos de idade.
No início do estudo, a maioria dos participantes tinha entre 40 e 59 anos (72,6%), era do sexo feminino (55,3%), branca (52,7%), possuía ensino superior (54,9%) e relatou nunca ter fumado (58,9%). As mulheres, em comparação aos homens, apresentaram maior prevalência de níveis insuficientes de atividade física, circunferência da cintura elevada (70,3% vs. 51,4%) e obesidade (22,9% vs. 19,4%).
Na primeira década da vida adulta, a maioria dos indivíduos apresentava peso normal. No entanto, com o aumento da idade, a prevalência de excesso de peso aumentou acentuadamente, atingindo o pico entre os 50 e 60 anos, momento em que essas categorias representavam aproximadamente dois terços da amostra. O peso corporal aumentou anualmente dos 20 aos 57 anos, seguido por um declínio progressivo. Os maiores ganhos anuais ocorrem nas idades mais jovens, entre os 20 e 34 anos, o ganho ajustado foi de 0,50 kg/ano, mantendo-se elevado até os 40 anos. Após os 57 anos, o peso médio diminuiu, com perdas mais pronunciadas com o avançar da idade.
As trajetórias de ganho de gordura e massa muscular seguiram um padrão semelhante, com maiores ganhos nas idades mais jovens e diminuição gradual com o avançar da idade. A massa muscular estabilizou-se do final dos 40 anos até o final dos 50 anos, diminuindo lentamente depois. Já os ganhos de massa gorda continuaram até o final dos 50 anos, seguidos de um declínio constante. Os ganhos e perdas de massa gorda foram maiores do que os observados para massa muscular. Em relação à circunferência da cintura, os maiores aumentos ocorreram no final dos 30 e início dos 40 anos, mas a medida continuou aumentando até os 75 anos.
A diferença cumulativa média ajustada de peso entre os 20 e 75 anos, aumentou até os 40 anos, atingindo um máximo de 14-15 kg entre 52 e 60 anos e, posteriormente declinando para 12 kg aos 75 anos. Metade desse ganho (7,5 kg) ocorreu entre 20 e 34 anos, e 29% (4,4 kg) entre 35 e 44 anos e 21% (3,1 kg) entre 45 e 60 anos. A massa gorda apresentou trajetória semelhante, atingindo um pico de 5,1 kg aos 64 anos, representando aproximadamente 93% do ganho de peso observado entre os 38 anos e o pico. Já a massa muscular esquelética apresentou menor variação e atingiu um pico de 0,21 kg aos 49 anos. Em contraste, a circunferência da cintura continuou aumentando ao longo de toda a faixa etária, atingindo 24,9 cm aos 75 anos.
Em síntese, o acompanhamento de adultos brasileiros por 13 anos, mostrou um aumento estimado de 15 kg no peso corporal ao longo da vida adulta, avaliado dos 20 anos até a idade de pico de peso da coorte. Os maiores ganhos anuais ocorrem até os 40 anos, diminuindo progressivamente até o início dos 50 anos. O peso médio permaneceu estável na década seguinte e passou a declinar a partir de meados dos 60 anos. A massa gorda acompanhou essa trajetória, enquanto a massa muscular apresentou variações menores; já a circunferência da cintura aumentou continuamente, inclusive em idades mais avançadas. Os maiores ganhos de peso observados nas coortes mais recentes sugerem que, caso as tendências atuais se mantenham, as gerações mais jovens poderão apresentar um ganho de peso acumulado ao longo da vida adulta ainda maior.
Esses resultados reforçam a importância de estratégias de saúde pública voltadas à prevenção do ganho excessivo de peso desde o início da vida adulta. Essas estratégias devem promover atividade física, alimentação e ambientes saudáveis, priorizando comportamentos sustentáveis e mensagens de cuidado e bem-estar, em vez de abordagens centradas exclusivamente no peso e que possam contribuir para a estigmatização.




